Jimmy

doze anos

Deja un comentario

quando o telefone tocou naquele dia ela esperava qualquer coisa, menos o que ouviu. “vamos sair para jantar?” , ele perguntou bem seguro do outro lado da linha. ela disse que sim. depois de muita conversa e negociação entre as famílias dos dois, eles puderam finalmente ir a aquele restaurante que ele sempre via da janela e sabia que a levaria um dia.

ele não sabia o que fazer, mas o seu pai havia lhe ensinado tudo. não é porque ele tinha somente doze anos que precisava ser inseguro. e mesmo que estivesse apavorado não precisava demonstrar. assim ela também ficaria à vontade e talvez até esquecesse das recomendações que recebeu dos próprios pais. seja firme, sorria, fale com todo mundo. era da voz do pai que ele lembrava quando a barriga começava a gelar.

ela estava calma. sabia que não ia seguir o que os seus pais a haviam mandado fazer. o máximo que você vai fazer é pegar na mão dele e dar um beijo no rosto na hora de dizer tchau tinha soado muito patético. sua mãe nunca havia lhe falado nada de garotos. o seu pai tinha feito um escândalo dizendo que ela não tinha idade para sair pra jantar com um. mas era só um jantar. sua mãe conversou com o marido e o convenceu. prometeu instruir a filha e fez a menina jurar que ia seguir o que fosse recomendado. ela achou tudo ótimo, menos a conversa que teve com a mãe. afinal ela já sabia que garotos não eram ETs que a engravidariam se a tocassem. tinha aprendido tudo na escola, naqueles paradidáticos que fazem todo adolescente pensar que ler é chato mas descobrir que nem sempre os pais tem razão.

o taxi parou na frente do restaurante e os dois desceram. o maître fez uma cara de espanto quando o menino disse, com toda a segurança do mundo “uma mesa para dois, por favor”. deixou entrarem, claro que antes perguntando como os dois pagariam a conta, o que fez com que o menino tivesse que mostrar as várias notas de R$50 que tinha na carteira.

quando sentaram perceberam os olhares de todos. ninguém achava que eles devessem estar ali, em um sábado às nove da noite jantando em um lugar cheio de adultos. mas ao invés de se envergonhar o menino sorria. aquela noite era a mais feliz da sua vida.

em casa, a mãe da menina não conseguia se concentrar na novela. morria de medo que a sua filha não seguisse as recomendações. preferia nunca ter precisado conversar sobre isso com ela porque era muito embaraçoso explicar sexo a uma garota de doze anos.

a algumas ruas dali o pai do menino escutava um jazz e tomava um vinho enquanto lembrava dele mesmo doze anos atrás. ele era um garoto timido e inseguro que mal conversava com os pais, que pareciam sempre muito ocupados com a própria empresa e as viagens, para as quais ele nunca ia para não perder aulas. foi numa dessas que ele trouxe a namorada em casa e teve a sua primeira noite de amor. seus amigos diziam que sexo era muito bom, mas ele tinha certeza que nenhum deles tinha feito de fato. ele lia nas revistas e via na TV que a primeira vez era sempre meio desastrosa. mas a dele não foi. o desastre veio depois, quando a namorada engravidou. ambos com doze anos e sem saber o que fazer. passaram a gravidez sofrendo e ouvindo de todos os médicos que a criança e a mãe corriam risco de morte. os pais da garota, religiosos que eram, sequer consideraram um aborto. queriam que a vontade de Deus fosse cumprida. e ele levou a sua namorada embora, deixando um garoto lindo, de olhos grandes e sorriso encantador. começou a chover e ele desatou a chorar. e depois a rir. seu filho, doze anos depois de tudo também estava apaixonado. e ele resolveu que faria ao contrário de seus pais. disse ao menino o quanto amar era bonito e o quanto ele precisava arriscar viver algo ao lado da menina que ele amava.

ao fim do jantar o menino e a menina entraram no táxi e ficaram vendo a chuva cair abraçadinhos. trocaram o primeiro beijo minutos antes dela descer do carro. um filme do seu pai lhe contando a história de como ele havia nascido passou em sua cabeça. ele queria viver o amor que seu pai não pôde e por isso decidiu que jamais repitiria o seu erro. nunca tiraria da carteira as camisinhas que seu pai lhe deu mais cedo naquele dia. ele queria ter certeza que eles ficariam juntos por pelo menos mais doze anos.

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s