Jimmy

O convidado

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Fazia pouco tempo que eu conhecia a comida mineira. Lá no Nordeste ela é uma ilustre desconhecida. Quando mudei para São Paulo bastou eu experimentar uma vez para começar a frequentar o restaurante baratinho no fim da minha rua.

Naquele dia eu estava sozinho. Era um sábado quente e eu tinha acordado para me despedir de um amigo que tinha vindo passar férias por aqui. Assim que ele foi embora, fui para o restaurante mineiro. Já eram 4 horas da tarde e não havia quase ninguém. Resolvi sentar no terraço para ver o movimento da rua. Péssima decisão.  Foi só a comida chegar para um mendigo aparecer.

– Divide o teu almoço comigo, irmão.

Fiquei olhando pra ele. Parecia inofensivo, mas tinha cara de quem só sairia dali com um prato de comida.

– Vai, eu sei que vai sobrar. Me dá um pouco que eu vou embora!

Ele tinha razão. As porções daquele restaurante eram enormes. Não tive tempo de dizer nada porque o garçom apareceu para expulsar o mendigo.

– Vai embora daqui, vai!

– Não to fazendo nada de errado, só to pedindo comida!

– Você tá incomodando o cliente, cara. Dá o fora!

– Porra, por que vocês não dão o resto da comida de vocês pra gente? Sobra um montão todo dia aqui, os cara joga fora, mano! Prefere jogar fora do que dar pra gente!

– Desde aquele dia que vocês ficaram jogando pedra aqui exigindo foi que a gente parou. Mal agradecido!

Fiquei observando aquela discussão, que não ia levar a lugar algum, e percebi que se eu não estivesse ali tudo estaria na paz. Então só eu podia acabar com aquilo. Olhei para o mendigo e perguntei:

– Você quer almoçar comigo?

Não sei qual dos dois olhou para mim com uma cara de espanto maior. Repeti a pergunta.

– Você quer almoçar comigo?

– Eu?

– É, você. Você não queria comida? Senta aí e come comigo.

– O senhor tem certeza do que está falando? Ele pode lhe roubar.

– Tenho certeza que ele não vai fazer nada. E aí, topa?

Ele me olhou desconfiado.

– O que é que tu quer?

– Nada. Quero que você sente aí e almoce. Eu ia almoçar sozinho, você também. A gente almoça junto então. Garçom, traz mais um prato por favor?

O garçom, que antes parecia cortês e impessoal, achou que já tinha intimidade suficiente para sair balançando a cabeça em reprovação.

– Todo mundo só me expulsa dos lugares ou me dá dinheiro com má vontade. Por que cê me chamou pra comer?

Boa pergunta. Não faço a mínima ideia por que aquele mendigo incômodo tinha virado meu convidado. No começo achei que tinha feito isso sem pensar, só para encerrar a confusão. Mesmo eu podendo ter acabado com o problema de outro jeito. Resolvi mudar de assunto.

– De onde você é?

– Daqui mesmo.

– Onde você mora?

– Na rua, mano.

– E como é que você foi parar na rua?

Acho que ninguém nunca perguntou isso a ele. Ele parou de comer e me olhou de um jeito que ninguém jamais olhou pra mim. Era um misto de gratidão, carinho e insegurança.

– Por que você se importa?

Eu não sei o porquê. É a primeira vez que eu olho para um mendigo como uma pessoa igual a mim.

– Faz quanto tempo que você não almoça assim?

– Com outra pessoa assim numa mesa…Acho que uns dez anos.

Tentei pensar em quantos anos ele tinha, mas era difícil. Se a gente tivesse a mesma idade ele ainda era um adolescente quando essa última refeição ocorreu. Pensei em perguntar como e com quem tinha sido, mas achei que ele não iria responder.

Ele terminou rápido o prato. Disse um “Obrigado” evitando olhar pra mim e ia saindo. Levantei e lhe dei um abraço. As poucas pessoas no restaurante, que já não tiravam os olhos da nossa mesa, ficaram sem entender por que abracei aquele homem sujo. Nem eu sei. Queria dizer algo para ele. Mas o quê?

Não tive tempo de dizer nada porque o garçom apareceu para expulsar o mendigo.

– Vai embora daqui, vai!

– Não to fazendo nada de errado, só to pedindo comida!

– Você tá incomodando o cliente, cara. Dá o fora!

– Porra, por que vocês não dão o resto da comida de vocês pra gente? Sobra um montão todo dia aqui, os cara joga fora, mano! Prefere jogar fora do que dar pra gente!

– Desde aquele dia que vocês ficaram jogando pedra aqui exigindo foi que a gente parou. Mal agradecido!

Fiquei observando aquela discussão, que não ia levar a lugar algum, e percebi que se eu não estivesse ali tudo estaria na paz. Mas fiz o que a gente sempre faz nessas horas: ignorei aquilo tudo e deixei o garçom expulsar o mendigo para que eu comesse tranquilo.

Sobrou muita comida. Pedi para o garçom embrulhar para viagem e deixei ao lado de dois mendigos que dormiam em alguma esquina. Só assim tirei o peso da consciência por não ter feito daquele rapaz o meu convidado.

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