Jimmy

Faltaram

2 comentarios

Nos últimos dias faltaram muitas coisas, mas acima de tudo faltaram palavras.

Minhas e do meu pai, enquanto ele estava tendo um derrame na minha frente. E ainda dele, dias depois na UTI, tentando me dizer algo que parecia importante.

Faltaram coisas que eu não disse para ele antes de tudo acontecer e que serão bem mais difíceis de dizer agora.

Nesses dias todos, faltou o impulso para encher uma tela branca. Eu, que me sentia involucrado em um marasmo sem fim, em minutos me vi dentro de uma tragédia familiar, daquelas que eu sempre ouvi mas achava que estaria já longe demais quando fosse acontecer na minha casa. Mas eu que fui dentro da ambulância sem conseguir pensar em futuro algum.

E até hoje, até horas atrás, eu não sabia o que escrever sobre isso. Eu nem sabia se queria escrever sobre isso. Faltou ânimo.

Mas incrivelmente eu não estou triste. Eu estou preocupado, angustiado. Ando pelo apartamento vazio, que antes só parecia vazio, perguntando a mim mesmo daqui a quanto tempo tudo vai voltar ao normal. Também sempre penso no que isso tudo quer na verdade me dizer ou me fazer aprender. Trabalho loucamente, no ritmo de sempre, para esquecer que as coisas agora estão assim. Prefiro me afastar um pouco da situação por ter medo de me afogar nela.

mergulho

Cada vez que alguém me pergunta sobre o que está acontecendo eu tenho vontade de não responder. Já pensei em pedir que não me perguntem mais nada, mas acho que ninguém entenderia meus motivos.

Eu não tenho que parar a minha vida por causa de uma fatalidade.

Eu não preciso transformar a minha vida na fatalidade.

Eu não estou pedindo para que tenham pena pelo que aconteceu na minha casa.

Os dias passam lentamente. Cada movimento pequeno, cada palavra que ele consegue dizer que soa como o ele de antes me dá esperança. A perna que dias atrás não mexia já levantou e me deixou com os olhos cheios de lágrimas. As lágrimas que sempre faltaram no elo entre eu e meus pais: aquelas de felicidade. E que espero que não faltem mais.

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2 pensamientos en “Faltaram

  1. Que bonito, isso de duas palavras e seu compartilhar com a gente. Espero que seu pai fique bom, e que aquilo que “parecia ser importante” ele diga com as proprias forças. Abraço.

  2. Lindo, velho. Lindo… É foda como a nossa vida não pode parar diante dessas fatalidades, mas são essas fatalidades que nos fazem parar pra pensar na nossa vida. Primeiro, ficamos parados. Somos tomados por aquilo, ficamos estatelados e sem saber como reagir. Depois, o acontecimento nos abala e nos desloca de tal forma que paramos pra pensar no que nos afetou, e isso dá impulso para revermos as coisas sob uma ótica diferente. Nesse caso, querendo ou não, aquela sensação de quase-perda, ou da possibilidade da perda, pode ser absolutamente transformadora e ressignificar muita coisa. As fatalidades nos ensinam muito. Além de esperar que tio Joezer se recupere, espero que você possa recuperar e resgatar coisas que estavam escondidas e guardadas, mas que agora surgiram — não das cinzas, mas justamente das não-cinzas de uma morte que esteve próxima, mas que ainda bem não aconteceu e está te dando essa chance. Aproveita, que esse momento pra estar aberto ao que isso pode te trazer é realmente válido. É uma chance de ouro. Um beijo e se cuida…

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