Jimmy

Makeover

Deja un comentario

Como a cidade era feia a aquela hora. Escura, quase ninguém andando na rua e carros sem respeitar as faixas de pedestre. Mas era Boa Viagem pelo menos. Recife estava longe de ser Nova Iorque, mas tinha a sua Manhattan. Com esgotos a céu aberto, fios de alta tensão assassinos e sem estações de metrô, mas era o mais parecido que havia.

Julia vivia no melhor lugar dali, em um apartamento milionário na beira-mar. Tentava se fazer de humilde, mas não convencia. Tinha aquele ar de superioridade insuportável, mas não conseguia fazer amizade com gente do mesmo nível. Era feia demais para eles. Não era uma mulher feia, entendam, ela só não encaixava no padrão garota-rica-da-Avenida-Boa-Viagem. Seu cabelo era cacheado e escuro, vestia 46 e não tinha namorado. Mesmo com todo o dinheiro e o sobrenome, era uma derrotada dentro da jovem elite. Acabou tendo que buscar amigos menos afortunados – não tanto, apenas umas três ruas para trás, onde os apartamentos custavam R$200 mil e agora não vendem por menos de R$1 milhão.

Tinha um sorriso doce e tímido. Seus amigos a adoravam e viviam tentando aumentar a sua auto-estima em vão. Até que alguns caras se interessavam por ela, só que eles não eram tão bonitos ou ricos quanto os namorados das meninas que moravam no seu prédio. Inclusive porque esse tipo de cara nem olhava pra ela.

Naquela noite saiu puta da festa. Sua melhor amiga pegou o boy com quem ela tava ficando. E o pior: ele era feio. Ela tinha finalmente baixado o seu padrão e dado uma chance pra um que era mais ou menos porque tinha cansado de ficar sozinha. Mesmo sendo feio, ele agradava. A fama era que trepava como ninguém. Mas nem isso ela conseguiu descobrir. Puta, muito puta. Naquele dia decidiu que jamais fariam aquilo com ela outra vez. Se fosse pra perder um homem pra outra, seria pelo menos um cara gato e rico e para uma mulher melhor que ela.

No dia seguinte marcou uma consulta com uma nutricionista e se matriculou em uma academia. Começou a emagrecer. Assim que perdeu 10 quilos, fez uma lipoescultura. Alisou os cabelos. Meses depois saiu para comprar roupas e não acreditou: vestia 38 folgado. Ela se via diferente. Cumprimentava os namorados das meninas do seu prédio com confiança e recebia sorrisos safados de volta. Os amigos ficaram felizes por ela, que estava finalmente bem. Sua ex-melhor amiga e o cara feio tinham ficado arrependidos e nada mais entre eles tinha rolado, mas ela não falou com nenhum dos dois até ficar linda. Assim que o makeover terminou, resolveu perdoá-los. Mas nem precisava de muita inteligência para ver que não era perdão coisa nenhuma, ela só queria mostrar que estava por cima. Só que ninguém percebeu. Ela conseguiu se sair como a boazinha da história. Era um papel que sabia fazer.

Agora que podia, procurou se enturmar com as garotas do prédio. Recebeu o convite de uma pra sair com seus amigos. No meio deles, estava Flávio. Bonito, rico e bonzinho, ele tinha o pacote completo. Os dois passaram a sair e começaram a namorar. Ela dizia isso com gosto. Nunca se referia a Flávio usando o nome, era sempre MEU NAMORADO. Assim em maiúsculas.

Sua doçura foi sumindo aos poucos. O ar arrogante foi ficando mais forte. Seus amigos antigos quase não a viam mais e quando eles se juntavam ela sempre dizia ou fazia algo que deixava alguém chateado.

A pior das vezes foi na formatura de um deles, quando ela disse sem medo  “Você não arruma ninguém por causa dessa pança. Vai malhar, menino!”. Antes ela vivia dizendo a ele que alguém se apaixonaria por quem ele realmente é. Quanta balela, meu Deus. Ninguém se apaixona se não gostar da embalagem, isso todo mundo sabe. Ela também. Mas o cara era sensível. Sempre teve problemas com o peso, nunca conseguiu realmente controlá-lo e achava que era uma guerra perdida. Julia não o poupou “Eu consegui. Simplesmente deixei de ser preguiçosa e resolvi ME AMAR. Você não se ama e ainda quer que alguém goste de você?? Deixa de ser patético”.  Ele bebeu pra caralho e chorou no banheiro sem ninguém ver.

No carro, voltando para casa, Flávio pensou no que ele tinha visto. Não era aquela a mulher que ele gostava. Uma coisa era ter auto-estima, outra era achar que por causa disso tinha o direito de dizer ou fazer o que queria. Era justamente isso que ele detestava nas patricinhas que conhecia naquelas festas regadas a Veuve Clicquot nas coberturas de Boa Viagem. Foi por ver que Julia era mais real que se interessou por ela. Talvez ela só estivesse tentando ajudar o amigo do jeito errado, mas e se ela fosse escrota mesmo? Se ela fosse aquela que ele viu, tão imponente, tão cheia de si, era melhor deixar ela em casa e ir dormir sozinho pensando se valia a pena seguir com uma mulher dessas. Ninguém consegue ser feliz do lado de uma pessoa assim – e os que dizem que são só querem transar com alguém bonito e apresentá-lo pros amigos.

makeover

Julia tirou o vestido lindo e se viu no espelho. Que corpo estranho, nem parecia mesmo seu. Mas era e não foi fácil chegar até ali. Tirou uma foto nua e mandou para Flávio. Ele não respondeu. Devia estar batendo uma punheta pensando nela. Agora que ela tinha aquele corpo, ninguém podia lhe subestimar. Ela estava dando o troco no mundo por todo o tempo em que se sentiu invisível.

No dia seguinte o seu amigo gordinho lhe escreveu. Perguntou por que ela tinha sido tão bruta e se ele tinha feito algo que ela não gostou. Ela somente respondeu “Não” e ligou para Flávio. Os dois foram para um restaurante caríssimo no Shopping Rio Mar. Julia não parava de reclamar – do trânsito, do garçom, de Flávio que não lhe dava atenção. Flávio tomou o seu vinho pensando em acabar aquele namoro. Sabe quando você compra uma torta que tem todos os ingredientes que você gosta, está super bem montada e você tem certeza que é uma delícia até a primeira garfada? Você não consegue entender como uma torta de doce-de-leite com castanha pode ser tão ruim e continua comendo, até se dar conta que não vai melhorar. O doce-de-leite era daquele mais barato, a torta é massuda e a castanha tem gosto de não-sei-o-que. Era essa a sensação que ele tinha com Julia.

Parou o carro na frente da casa dela e falou. Tentou não dizer a verdadeira razão para acabar, não era necessário. Somente disse “Acho que eu e você somos muito diferentes”. Ela ficou possessa. Ele não tinha direito de acabar com ela. Ela é rica, linda, gostosa, por onde passa mil caras querem uma chance. Quem era ele para achar que podia dar um pé na sua bunda? Ele que não se dedicava ao namoro como deveria, que não a tratava como merecia, ELA que deveria estar terminando tudo.

Antes de sair do carro, ela abriu a carteira, tirou um punhado de notas e jogou na cara dele “Pelo jantar de hoje”, disse antes de descer batendo a porta. Aí ele sabia que tinha feito a coisa certa. Se ela achava que aquilo era amor próprio, ela nem devia saber o que era amor.

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s