Jimmy

Quando eu tinha 7 anos

13 comentarios

Há 7 anos completei 18 anos. Há 7 anos sou professor de Inglês.

Aos 7 anos eu sonhava com muita coisa, mas nunca sonhei em dar aulas. Aconteceu.

childhood
Eu e meu irmão Dante, no meu primeiro dia de aula na vida (1993!)

Eu tinha 13 anos quando conheci uma professora incrível e pensei “Quero fazer isso um dia”. Aos 15 tirei o FCE, um certificado importante que atesta o seu conhecimento em Inglês e fiz o meu primeiro curso de teaching. Aos 18 consegui meu primeiro emprego.

Desde então não parei mais. Passei por 3 escolas de idiomas, tive vários alunos particulares, fiz cursos, tirei o temido CPE e me apresentei em conferências no Brasil e no exterior.

A vida estava se desenhando na minha frente de um jeito que eu nunca pensei, mas que era bom. Sempre gostei de estar em uma sala de aula, abrindo as portas de todo um mundo que só existe em Inglês e de quebra conhecendo pessoas interessantes. Além de tudo me divertia. Não houve um dia de trabalho sequer no qual eu não tenha dado pelo menos uma boa gargalhada.

Sobre a parte financeira também não posso reclamar. Pelo meu nível de qualificação sou bem remunerado no meu emprego atual e construí uma reputação para ter um bom número de alunos particulares. Claro que se eu tivesse dois filhos para sustentar acharia o que ganho pouco para manter o meu padrão de vida, mas para um homem solteiro que nunca vai ter filhos eu poderia ganhar o mesmo por muito tempo e ficaria satisfeito. Viveria sozinho e viajaria uma vez por ano para qualquer lugar. Não seria uma vida ruim. Se quisesse, poderia investir ainda mais na carreira e alçar outros voos: escrever livros didáticos, dar palestras e treinar professores ao redor do mundo. As possibilidades eram infinitas.

Mas não era assim que o menino de 7 anos que fui um dia projetou a sua vida.

Aos 9, meus pais me mandaram a uma psicóloga e eu não entendia por que. Aos 22 voltei à mesma psicóloga que me disse: “Quando você veio aqui pela primeira vez e sentou na minha frente eu te perguntei o que você queria fazer quando crescesse. Você abriu um sorriso enorme e me disse ‘Eu vou ser artista’.” Eu imitava apresentadores de TV e isso preocupava os meus pais, que desde cedo me deixavam claro que não aceitariam que eu enveredasse para este lado.

Cresci e eles viram com alívio a minha carreira em English teaching. Por muito tempo tentei me convencer que essa era a vida que eu deveria ter, afinal de contas tudo estava a meu favor. A minha vontade de estar em um palco e emocionar as pessoas eu matava com peças amadoras que produzia com amigos e apresentava no auditório de uma livraria nos fins de semana, a cada 3 meses.

Aos 20 anos pirei e decidi largar tudo. Mudaria para São Paulo, estudaria interpretação e começaria a vida que eu sempre quis. Viajei à cidade um mês antes da mudança para entrevistas de emprego e fui atropelado. Quebrei a perna, tive que ser operado e a recuperação demoraria. Senti que meus sonhos tinham sido engolidos pelo mundo.

Nos anos seguintes mergulhei na carreira que já tinha e fiz uma tentativa que poderia me levar enfim ao que eu queria: produção. Com um grupo de amigos começamos a produzir festas que de cara deram super certo. A RAWR, nosso coletivo, durou quase 2 anos e se destacou pelos vídeos de divulgação dos eventos, nos quais eu usava o meu lado artista, como diria eu mesmo aos 9 anos. Foi uma época legal. Tive um pequeno aperitivo do que era trabalhar com criatividade e ser conhecido por isso mas, por motivos internos, o coletivo acabou.

Voltei então ao mundo real, onde se espera o 5º dia útil para o salário cair na conta, as pessoas vivem reclamando e o tempo parece não passar. Não foi fácil me ver sem um norte, sem algo pelo que lutar. Sabia que um dia tudo iria mudar, que o meu futuro não tinha nada a ver com aquilo que eu vinha fazendo. Mas eu não sabia o que fazer. O medo me consumia. E se eu quisesse largar tudo  e outra vez algo acontecesse para impedir?

Passei a viajar muito e em uma dessas viagens vi a montagem brasileira de “O Rei Leão”. Sentei na primeira fila e ao final, quando os atores se apresentam ao público, acenei para Tiago Barbosa, o Simba, e ele acenou de volta. Naquele momento não consegui evitar de pensar que, se aos 18 anos eu tivesse resolvido que seguiria a vida que desde pequeno escolhi, eu poderia estar naquele palco. Talvez não fosse fácil, como para ele não foi, mas o fato de ele estar ali só me mostrava que era sim possível.

Ao invés de ter me respeitado, eu tentei agradar outras pessoas. Dei ouvidos demais a meus pais e ao mesmo tempo não queria deixar que a vontade deles fosse mais forte que a minha. Acabei deixando a minha vida suspensa. Foram anos fingindo estar totalmente realizado, quando no fundo eu sabia onde queria estar. Não queria continuar vivendo em Recife para ser um ator de fim de semana, tendo que dar aulas de segunda a sábado para pagar as contas. Queria viver da minha arte, provocar, emocionar e divertir as pessoas.

A explosão do mercado de celebridades instantâneas faz todo mundo achar que quem quer ser artista busca somente fama. Não é assim. Ser famoso é uma necessidade para viver bem como ator, escritor, pintor, dançarino, comediante, ou qualquer outra coisa que esteja no campo artístico. Isso também se aplica a outras áreas: um médico famoso tem mais pacientes, um professor conhecido consegue mais alunos, um arquiteto precisa que seu nome seja familiar para realizar mais projetos e por aí vai. Muitas pessoas vêem de forma enviesada aquele que abre a boca e diz que quer ser um artista profissional. Olham para você como um iludido que sonha com fama e fortuna e que não quer ‘trabalhar de verdade’. Meus pais sempre me viram dessa maneira. Por isso não foi fácil chegar à conclusão de que eu tenho direito a ser dono da minha própria vida e que eles terão que aceitar e respeitar as minhas escolhas. Dia desses esbarrei com a frase “A família é uma armadilha da qual é difícil escapar”. Não poderia haver palavras melhores para ilustrar o meu caso.

Demorou 5 anos desde o meu atropelamento para que eu decidisse, novamente, tomar as rédeas do meu futuro. Não posso mais ver a vida passar enquanto meus sonhos se dissolvem e eu me torno um cara que nunca quis ser. Não quero um dia dizer “Sou assim porque sou um artista frustado”, quando eu sequer fui ser esse artista. Não quero virar uma pessoa amargurada, que não tentou mudar a própria existência e vai para sempre culpar os outros pela minha infelicidade.

Em Janeiro estou indo para Lima, no Peru. A vida colocou essa cidade no meu caminho de uma maneira inesperada e ela me conquistou. Pesquisei como funcionava o mercado artístico e encontrei o que eu queria. Os teatros são cheios de segunda a segunda, há vários cursos de formação de atores e a televisão é diversa e encontra-se em crescimento. Os peruanos são muito abertos a estrangeiros no meio artístico, e o fato de que tenho um biotipo que se destaca no país e Lima tem a metade da população de São Paulo são coisas a meu favor. Percebi que lá tenho oportunidades e posso lutar para chegar onde eu quero.

Continuarei a ensinar Inglês, mas desta vez para o meu sustento e não porque quero me conformar com o que aconteceu para mim. Enquanto estiver na carreira a conduzirei com a mesma seriedade e compromisso que tive até então. A diferença é que o plano A vai ocupar o espaço que sempre deveria ter tido em minha vida.

É o mínimo que eu poderia fazer pela criança que eu fui um dia.

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capa Quando ELA chegou

Capa do meu primeiro romance ‘Quando ELA chegou’ – Lançamento: 28/10/13 pela Amazon.

Sinopse:
“Ao saber que a sua ex de Brasília veio passar férias em Recife, Pablo foge para o interior. Lá só quer “ouvir seu rock, cheirar seu pó e beber seu vinho” – e claro, tentar esquecer Ela. Sem saber lidar ainda com o que sente, ele volta à cidade para encontrá-la. Então, uma descoberta inesperada para qualquer pessoa vai fazer Ela se tornar o menor dos seus problemas.”

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13 pensamientos en “Quando eu tinha 7 anos

  1. Fiquei absurdamente feliz de ler esse post, ao mesmo tempo que lamento e fico triste por não ter tido a oportunidade de conviver com um garoto singular como você, isso por uma bobagem geográfica. Quero muito te ver nessa nova vida, não só porque você merece mas porque sei que você não saberá viver de outra forma. Um enorme abraço fraterno de quem te quer muito bem!

  2. Meu querido, suas palavras caíram como uma rosa linda bem a minha frente. Siga seus sonhos!! É tão difícil tomar esse impulso na vida! Estou muito orgulhosa de você!! Fico muito feliz em saber que você está de fato indo atrás do que acredita! Aguarde minha visita, viu. Um beijo! Betina

  3. Oi Jimmy.

    Acabei de ler, com prazer, o seu texto e não posso me furtar de deixar umas palavras para você.

    Estou realmente feliz de saber que você decidiu correr atrás dos seus sonhos. Acho um barato ver jovens amigos meus tão determinados a escrever a própria história em vez de copiar as que já estão escritas.

    A minha e a sua história têm fatos em comum. Eu também queria ser atriz e estava pronta para sair de Recife. Ia morar no Rio aos 18 anos quando houve um desfalque na Caixa Econômica que inviabilizou a minha ida. O meu pai, que trabalhava com construção civil, já não poderia me dar o apoio financeiro inicial do qual eu tanto precisava. Chorei muito e fui consolada por meus pais que, diferentemente dos seus, me deram todo apoio e garantiram que seria só um adiamento, mas que eu iria. Entrei na faculdade, terminei meu curso e aqui estou, ensinando inglês e fazendo pequenos trabalhos amadores muito esporadicamente pra me divertir. Não realizei meu sonho, mas sou feliz na medida do possível.

    Você agora já tem um leque de possibilidades pois, além de professor, o que também o realiza, você agora é escritor.

    Eu entendo você talvez mais do que qualquer outra pessoa, e o admiro muito por essa decisão de ir buscar o que é seu – seus sonhos. Espero ouvi-lo dizer, muito em breve, que está tudo correndo bem e que o Jimmy menino está muito feliz e orgulhoso do Jimmy homem.

    Quando um dia, já muito bem sucedido, você precisar de alguém para fazer uma pontinha qualquer num trabalho seu, espero ser convidada, viu?

    Parabéns pela força e determinação.

    Um grande abraço.

    Sandra Vieira

  4. Que legal, Jimmy! Desejo sucesso nessa sua nova fase. É muito bom (e inspirador) ver pessoas indo atrás de seus sonhos. Ah! sonhei com a capa do teu livro essa noite hahaha beijos!

  5. Eu quero ser ? ? ? quando crescer, eh uma frase que muitos dizem, porem descrever com emocao e expressando claramente suas ideias, sao poucos que assim fazem. Hoje vejo bem a pessoa que voce eh, e mais claramente entendo seu jeito de pensar. Por isso meu amigo, usando a frase que muitos dizem, te digo com todo carinho: nunca desista dos seus sonhos! Mantenha essa determinacao e em breve estarei assistindo voce, exatamente quando ainda nao sabemos, mas irei sim estar muito feliz e emocionada. Um grande beijo.

  6. Muito legal Jimmy. O que posso dizer de você, do pouco que o conheci, é que, se dar aulas não é a sua opção principal vitalícia, você certamente executa-a muito bem.

    Minha época de reflexão e revolução aconteceu ano passado (com a sua idade, 25, também :D), quando larguei um emprego e um bom salário aí no Recife para ir atrás do que me faz feliz. O primeiro passo que tomei foi concretar uma das habilidades onde tenho facilidade e experiência de estudos, que é o inglês: tirei o FCE, e continuo estudando. Mas, não é o que quero fazer pra sempre, integralmente, mas é o que vai me sustentar nessa nova caminhada, acredito.

    Não sei se existe resposta certa nessas horas…saí do Recife com uma dívida pra pagar, tô me lascando pra honrá-la, mal tenho dinheiro pra comer uma maçã, estou de volta na casa dos meus pais, mas estou indo em direção à algo melhor, disso tenho certeza.

    Força cara! E valeu! A Amazon vai vender cópias físicas do seu livro?

    Abração.

    • Saulo, primeiro quero dizer que fico feliz que tenhamos algo assim em comum. Coragem para virar a mesa é uma coisa contagiosa e ler a sua história me faz muito bem – e com certeza também a quem mais vier aqui.

      Sobre o livro: sim, a Amazon vai vender cópias físicas e digitais.

      Abraço e muita força pra você também!

  7. Go for it!! Be happy!! Estou torcendo por voce! Como diz Lenine, isso é só o começo! bjs

  8. Texto sensacional, querido. 🙂 Fico muito feliz por você e ACREDITO que pelo seu talento e dedicação você irá longe. Acredito.

    E como disse, te vejo em Lima!:)

  9. Seja feliz , estou ao teu lado, pode contar. Só estou cheteada por não ter ganho um livro autografado, não mereço? bjsssss

  10. Amigão só foi necessario te ver uma vez pra saber que vc era uma pessoa especial!
    Continue por esse caminho, que sua estrelha brilhe sempre!
    Abraços!

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